Antes de tudo, gostaria de distinguir saber, conhecimento e informação. O saber é fruto da sabedoria e se caracteriza como globalizante, fruto da contemplação da causa e fim de todas as coisas. O conhecimento, ao contrário, é fragmentado e é literalmente um “produto” das ciências, que se baseia em hipóteses submetidas à verificação ou falsificação. Trata-se de um conhecimento de domínio e instrumentalização da natureza. Por fim, a informação que se baseia na opinião, isto é, um tipo de conhecimento confuso que se opõe aquele científico, mas que pode ser confirmado ou desmentido pela comunidade científica.
Mas nos concentraremos na sabedoria, concebida em dois modos por Tomás de Aquino: a) fruto do esforço do homem, uma virtude que se desdobra em empenho no conhecimento da verdade; b) dom do Espírito Santo, pois Deus não é plenamente ao alcance da mente humana. A sabedoria é para o Dr. Angélico uma disposição que envolve o homem intimamente e por isto é como a raiz das suas singulares ações. É um equívoco compreender a sabedoria como a soma de muitos conhecimentos, na verdade, o sábio é aquele que é plenamente ele mesmo em conformidade à fidelidade de profunda sede de felicidade.
Podemos então entender a proposta desta publicação com a ajuda do Aquinate (Tomás de Aquino) que distingue uma tríplice função da sabedoria: a contemplação da verdade, o juízo sobre a realidade e a ordem. O hábito (habitus) da sabedoria faz sim com que o homem contemple a verdade que é Deus, princípio do ser e fim de toda a criação. Se não conhecêssemos de onde viemos e para onde vamos, como poderíamos conduzir a nossa vida à luz do nosso fim último? O mundo e a história humana encontram em Deus as suas explicações. Contemplar a verdade é descobrir a unidade que liga os múltiplos aspectos da realidade; é dar um “olhar simples” além da superficialidade das coisas que estão ao nosso redor e colher o dinamismo secreto ou interno que conduz todas elas a um princípio invisível.
O juízo, por sua vez, se fundamenta no fruto da contemplação. Após descobrir o porquê do mundo circundante, o homem pode deixar que a estrutura do universo seja a sua medida, isto é, o homem amadurece o seu pensamento no confronto com a realidade e toma posição ao interno da mesma. Esta é a condição para que a verdade descoberta através da contemplação possa existir também em nós. Não se trata de alontanar-se do mundo, ao contrário, significa retornar a ele e vê-lo à luz da totalidade, do inteiro, ou seja, a criação passa a ser considerada numa perspectiva mais ampla, além da sua ilusória aparência. Em síntese, é ver as coisas com os olhos de Deus, dar a cada uma o significado que lhe foi dada pelo Criador e, portanto, não impor os nossos esquemas (impulsos, modelos culturais, etc.) à nossa existência.
Por último, a sabedoria tem como fruto a paz interior e a tranqüilidade, pois permite ao homem ordenar a sua própria vida. Antes de qualquer coisa, é bom ter presente que ordem não significa uma “desordem organizada”, ou seja, a ordem se distingue de uma vida metódica, há pessoas desorganizadas que possuem ordem na própria existência. Um jovem, que possui o quarto bagunçado, por exemplo, pode agir com sabedoria e, portanto, com ordem. Mas o que significa ordem como uma das funções da sabedoria? Ela faz três chamadas ao homem. A primeira é a chamada a ordem teórica, isto é, ordenar as próprias idéias, dando uma coerência aos diversos pontos de vista pessoais. A segunda é um chamado à cultura, pois o homem produz cultura; o sábio, assim sendo, se empenhará em reconstruir uma cultura à luz da sabedoria e não conforme as circunstâncias contingentes da vida. Por fim, o sábio é chamado à vida prática como tal, já que a sabedoria é também dom do Espírito – segundo Tomás de Aquino. Este último ponto põe a atenção na questão sobre a coerência entre aquilo que acredito e o modo com que conduzo a minha vida, ou seja, a relação entre teoria e prática. Esta problemática é importantíssima, pois está à base das nossas relações pessoais e da vida em sociedade.
Eis que se revelou o modo em que a sabedoria produz felicidade! O homem que busca a própria felicidade, que se encontra no possesso de Deus, guia à própria existência sob a luz da sabedoria. Conhecedor da sua origem e do seu fim, da verdade criadora, ele adéqua as próprias ações e toma decisões tendo como fundamento um princípio orientador que dispõe cada momento da sua vida em conformidade à totalidade da mesma. Talvez, após ler as duas partes desta publicação, você pode estar pensando: tudo isto é muito difícil e parece algo irrealizável! Lembre-se que várias pessoas viveram sabiamente antes de você, encarnaram na própria vida a teoria apresentada no nosso texto, mesmo sem ter consciência de cada um dos pontos aqui expostos. Se foi possível a “D. Maria” e ao “Sr. João”, por qual motivo não seria possível a você?
Numa sociedade capitalista como a nossa, as pessoas entendem felicidade como uma mercadoria que pode ser comprada no shopping, enquanto, na verdade, ela se identifica mais com o ser do que com o saber. Outros julgam a felicidade como um erro, estado subjetivo da pessoa, como um sentimento ou uma condição psicológica. Esta concepção se manifesta em individualismo, relativismo ético, pragmatismo, etc. Neste contexto, o presente texto não é uma fórmula para a felicidade, mas a proposta de uma filosofia de vida que pode nos conduzir a um estado de realização pessoal como um todo, ou seja, que abarque seja o aspecto subjetivo seja aquele objetivo da existência humana.
Infelizmente, na sua trajetória histórica, os homens trocaram o saber pelo conhecimento e este último pela informação. A meu ver, estas áreas se distinguem, mas, todavia, não deveriam se opor ou contrapor. A filosofia não pode fazer pouco caso das ciências modernas, o contrário também seria um erro. Nem mesmo essas duas podem desprezar a informação, ainda mais com a expansão da internet, já que o senso comum se apresenta como matriz e fonte de pesquisa. Podemos estender este nosso parecer à ciência teológica que será condenada ao falimento se não dialogar com a filosofia, não considerar os avanços científicos e não se traduzir em salvação das almas. Mas este é um assunto para outra ocasião.
BIBLIOGRAFIA
Alessandro Musco (ed.). Il concetto di «sapientia» in San Bonaventura e San Tommaso. Palermo, Enchiridion, 1983.
Aristóteles. Ética a Nicômaco.
Giuseppe Savagnone. Il convito della sapienza. Il concetto di «sapientia» secondo san Tommaso D'Aquino. Caltanisseta, Edizioni del seminario, 1985.
Tomás de Aquino. Comentário à Ética Nicômaco de Aristóteles.