terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A riqueza e a inversão de valores

Tenho a intenção de processar a revista "Fortune", porque fui vítima de uma omissão inexplicável. Ela publicou uma lista dos homens mais ricos do mundo, e nesta lista eu não apareço. Aparecem: o sultão de Brunei, os herdeiros de Sam Walton e Mori Takichiro. Incluem personalidades como a rainha Elizabeth da Inglaterra, Niarkos Stavros, e os mexicanos Carlos Slim e Emilio Azcarraga. Mas eu não sou mencionado na revista. E eu sou um homem rico, imensamente rico. Como não? Vou mostrar a vocês:

Eu tenho uma família, esposa adorável, que ao me entregar sua vida me deu o melhor para a minha; filhos maravilhosos, dos quais só recebi felicidades; e netos com os quais pratico uma nova e boa paternidade.
Eu tenho vida, que eu recebi não sei porquê, e saúde, que conservo não sei como.
Tenho pessoas que sinceramente me amam, apesar dos meus defeitos, e a quem amo apesar dos meus defeitos.
Eu tenho irmãos que são como meus amigos, e amigos que são como meus irmãos.
Eu tenho um pouco do mundo na forma de um jardim, que todo ano me dá maçãs e que iria reduzir ainda mais a presença de Adão e Eva no Paraíso.
Tenho quatro leitores a cada dia para agradecer-lhes porque eles lêem o que eu mal escrevo.
Eu tenho uma casa, e nela muitos livros (minha esposa iria dizer que tenho muitos livros e entre eles uma casa).
Eu tenho olhos que vêem e ouvidos para ouvir, pés para andar e mãos que acariciam; cérebro que pensa coisas que já ocorreram a outros, mas que para mim não haviam ocorrido nunca.
Eu tenho um cachorro que não vai dormir até que eu chegue, e que me recebe como se eu fosse o dono dos céus e da terra.
E eu tenho fé em Deus que vale para mim amor infinito.
Eu sou a herança comum dos homens: alegrias para apreciá-las e compaixão para irmanar-me aos irmãos que estão sofrendo.
Pode haver riquezas maiores do que a minha? Por que, então, a revista "Fortune" não me colocou na lista dos homens mais ricos do planeta? "

Armando Fuentes Aguirre (Catón), jornalista mexicano

E você, como se considera? Rico ou pobre? Há pessoas pobres, mas tão pobres, que a única coisa que possuem é ... DINHEIRO.

Observação: o título do texto foi dado por mim e não pelo autor.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A SABEDORIA PRODUZ FELICIDADE I

A felicidade


“A sabedoria produz (ativa) a felicidade: mesmo sendo, de fato, uma parte da virtude na sua globalidade, pelo fato de ser possuída e de ser em ato, essa faz o homem feliz” (Ética a Nicômaco VI 10, 1144a 5).

Tomás de Aquino, ao comentar essa afirmação aristotélica, diz: “Ora, a felicidade não é uma ação que é realizada do externo, mas é uma operação que deriva do hábito (habitus) da virtude; logo, dado que a sabedoria é uma espécie da inteira virtude, pelo mesmo fato que uma pessoa possui a sabedoria e age em conformidade à essa é feliz” (Comentário à Ética Nicômaco de Aristóteles VI c. 10). Para compreendermos melhor o título deste texto e o sentido das afirmações aristotélica e tomasiana, temos que evocar a concepção de felicidade de nossos filósofos, pelo menos os aspectos que agora nos interessam.

Todo ação humana é realizada em vista de um bem (real ou aparente), que se apresenta como o fim pelo qual se age. Assim sendo, chamamos fim último do homem aquele bem que engloba todos os outros, que dá unidade às ações humanas e que faz com que a vida de uma pessoa seja avaliada e apreciada na sua totalidade e não como a soma de momentos isolados. A busca daquele bem último deverá dar sentido a todas suas ações. Deste modo, uma pessoa deverá buscar possuir tal bem e/ou realizá-lo na própria vida.

Para o Dr. Angélico (Tomás) o fim último deve ser um bem superior e deve respeitar os critérios de completude (auto-suficiência), de perfeição e de finalidade última. Ele encontra em Deus aquela natureza simples, completa e perfeita, que é suma bondade. Deus é em si mesmo a realização de todos os critérios acima mencionados e, portanto, se identifica com o fim último do homem. Ele é o Sumo Bem porque não necessita de nada além de si mesmo, a sua essência implica a sua existência. Para ser feliz, deste modo, o homem deverá buscar o possesso de Deus. Se realmente é assim, a felicidade pode ser alcançada pelo homem nesta vida ou somente naquela eterna?

A felicidade não deve ser entendida como um “estado passivo”, como mera recepção por parte do ser humano, bem sim como um “estado ativo”, isto é, que implica um empenho pessoal por toda a vida. Não há dúvida de que somente se entra em possesso do Criador por meio de um dom divino; todavia, a natureza humana não é anulada, a graça recebida aperfeiçoa a natureza, sobretudo o intelecto e vontade, garantindo assim o pleno exercício da liberdade, da autonomia do homem, etc. Segundo Tomás de Aquino, será através do conhecimento de Deus que o homem, nos limites da sua condição terrena, ativará a felicidade ou começará a participar da mesma, como uma antecipação daquilo que ocorrerá na eternidade.

Segundo essa perspectiva, Deus, enquanto objeto de conhecimento, resta diverso do homem e ao mesmo tempo um ponto de referência para o sujeito do conhecimento, é como se houvesse uma identificação vital entre sujeito-objeto, homem-Deus. Podemos dizer que é um “modo de ter” aquilo que é mais perfeito nesta vida através da contemplação (contemplatio), que é uma espécie de visão de algo que já se conhece. É importante sublinhar que a atividade contemplativa não se confunde com a vida de estudo ou com a de pesquisa da verdade, mas ao mesmo tempo não as excluí. Trata-se de uma admiração autêntica, de um estupor pleno de reverência e de gratidão diante da Suma Divindade, através da sua obra criadora. Portanto, a contemplação tomasiana implica amor e não somente conhecimento; feliz é aquele que vê (contempla) o que ama ou deseja.

Justamente por isto, para o Angélico, a felicidade plena se dará somente na outra vida, quando teremos a visão beatífica (visio beatifica). Deve ser assim, pois a contemplação (visão) da verdade divina não será mais limitada dos limites impostos pela dimensão corpórea do ser humano. Tomás insere a existência humana na eternidade, enquanto a felicidade ou beatitude se inicia aqui sobre a terra e se conclui após a morte. Com esta breve exposição sobre a felicidade, chegamos no ponto que desejávamos abordar nesta sede: a sabedoria tem haver com a perspectiva de felicidade terrena aberta ao homem por uma contemplação que não é aquela da visão beatífica.

A SABEDORIA PRODUZ FELICIDADE II

A sabedoria


Antes de tudo, gostaria de distinguir saber, conhecimento e informação. O saber é fruto da sabedoria e se caracteriza como globalizante, fruto da contemplação da causa e fim de todas as coisas. O conhecimento, ao contrário, é fragmentado e é literalmente um “produto” das ciências, que se baseia em hipóteses submetidas à verificação ou falsificação. Trata-se de um conhecimento de domínio e instrumentalização da natureza. Por fim, a informação que se baseia na opinião, isto é, um tipo de conhecimento confuso que se opõe aquele científico, mas que pode ser confirmado ou desmentido pela comunidade científica.

Mas nos concentraremos na sabedoria, concebida em dois modos por Tomás de Aquino: a) fruto do esforço do homem, uma virtude que se desdobra em empenho no conhecimento da verdade; b) dom do Espírito Santo, pois Deus não é plenamente ao alcance da mente humana. A sabedoria é para o Dr. Angélico uma disposição que envolve o homem intimamente e por isto é como a raiz das suas singulares ações. É um equívoco compreender a sabedoria como a soma de muitos conhecimentos, na verdade, o sábio é aquele que é plenamente ele mesmo em conformidade à fidelidade de profunda sede de felicidade.

Podemos então entender a proposta desta publicação com a ajuda do Aquinate (Tomás de Aquino) que distingue uma tríplice função da sabedoria: a contemplação da verdade, o juízo sobre a realidade e a ordem. O hábito (habitus) da sabedoria faz sim com que o homem contemple a verdade que é Deus, princípio do ser e fim de toda a criação. Se não conhecêssemos de onde viemos e para onde vamos, como poderíamos conduzir a nossa vida à luz do nosso fim último? O mundo e a história humana encontram em Deus as suas explicações. Contemplar a verdade é descobrir a unidade que liga os múltiplos aspectos da realidade; é dar um “olhar simples” além da superficialidade das coisas que estão ao nosso redor e colher o dinamismo secreto ou interno que conduz todas elas a um princípio invisível.

O juízo, por sua vez, se fundamenta no fruto da contemplação. Após descobrir o porquê do mundo circundante, o homem pode deixar que a estrutura do universo seja a sua medida, isto é, o homem amadurece o seu pensamento no confronto com a realidade e toma posição ao interno da mesma. Esta é a condição para que a verdade descoberta através da contemplação possa existir também em nós. Não se trata de alontanar-se do mundo, ao contrário, significa retornar a ele e vê-lo à luz da totalidade, do inteiro, ou seja, a criação passa a ser considerada numa perspectiva mais ampla, além da sua ilusória aparência. Em síntese, é ver as coisas com os olhos de Deus, dar a cada uma o significado que lhe foi dada pelo Criador e, portanto, não impor os nossos esquemas (impulsos, modelos culturais, etc.) à nossa existência.

Por último, a sabedoria tem como fruto a paz interior e a tranqüilidade, pois permite ao homem ordenar a sua própria vida. Antes de qualquer coisa, é bom ter presente que ordem não significa uma “desordem organizada”, ou seja, a ordem se distingue de uma vida metódica, há pessoas desorganizadas que possuem ordem na própria existência. Um jovem, que possui o quarto bagunçado, por exemplo, pode agir com sabedoria e, portanto, com ordem. Mas o que significa ordem como uma das funções da sabedoria? Ela faz três chamadas ao homem. A primeira é a chamada a ordem teórica, isto é, ordenar as próprias idéias, dando uma coerência aos diversos pontos de vista pessoais. A segunda é um chamado à cultura, pois o homem produz cultura; o sábio, assim sendo, se empenhará em reconstruir uma cultura à luz da sabedoria e não conforme as circunstâncias contingentes da vida. Por fim, o sábio é chamado à vida prática como tal, já que a sabedoria é também dom do Espírito – segundo Tomás de Aquino. Este último ponto põe a atenção na questão sobre a coerência entre aquilo que acredito e o modo com que conduzo a minha vida, ou seja, a relação entre teoria e prática. Esta problemática é importantíssima, pois está à base das nossas relações pessoais e da vida em sociedade.

Eis que se revelou o modo em que a sabedoria produz felicidade! O homem que busca a própria felicidade, que se encontra no possesso de Deus, guia à própria existência sob a luz da sabedoria. Conhecedor da sua origem e do seu fim, da verdade criadora, ele adéqua as próprias ações e toma decisões tendo como fundamento um princípio orientador que dispõe cada momento da sua vida em conformidade à totalidade da mesma. Talvez, após ler as duas partes desta publicação, você pode estar pensando: tudo isto é muito difícil e parece algo irrealizável! Lembre-se que várias pessoas viveram sabiamente antes de você, encarnaram na própria vida a teoria apresentada no nosso texto, mesmo sem ter consciência de cada um dos pontos aqui expostos. Se foi possível a “D. Maria” e ao “Sr. João”, por qual motivo não seria possível a você?

Numa sociedade capitalista como a nossa, as pessoas entendem felicidade como uma mercadoria que pode ser comprada no shopping, enquanto, na verdade, ela se identifica mais com o ser do que com o saber. Outros julgam a felicidade como um erro, estado subjetivo da pessoa, como um sentimento ou uma condição psicológica. Esta concepção se manifesta em individualismo, relativismo ético, pragmatismo, etc. Neste contexto, o presente texto não é uma fórmula para a felicidade, mas a proposta de uma filosofia de vida que pode nos conduzir a um estado de realização pessoal como um todo, ou seja, que abarque seja o aspecto subjetivo seja aquele objetivo da existência humana.

Infelizmente, na sua trajetória histórica, os homens trocaram o saber pelo conhecimento e este último pela informação. A meu ver, estas áreas se distinguem, mas, todavia, não deveriam se opor ou contrapor. A filosofia não pode fazer pouco caso das ciências modernas, o contrário também seria um erro. Nem mesmo essas duas podem desprezar a informação, ainda mais com a expansão da internet, já que o senso comum se apresenta como matriz e fonte de pesquisa. Podemos estender este nosso parecer à ciência teológica que será condenada ao falimento se não dialogar com a filosofia, não considerar os avanços científicos e não se traduzir em salvação das almas. Mas este é um assunto para outra ocasião.

BIBLIOGRAFIA

Alessandro Musco (ed.). Il concetto di «sapientia» in San Bonaventura e San Tommaso. Palermo, Enchiridion, 1983.

Aristóteles. Ética a Nicômaco.

Giuseppe Savagnone. Il convito della sapienza. Il concetto di «sapientia» secondo san Tommaso D'Aquino. Caltanisseta, Edizioni del seminario, 1985.

Tomás de Aquino. Comentário à Ética Nicômaco de Aristóteles.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da' invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali,constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz. No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou? Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real? Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.


A tese doutoral completa pode ser baixada aqui. São 403 páginas, mas a leitura se revelará frutuosa e agradável aos interessados pela temática-experiência.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

FILOSOFIA?

Muitas pessoas se perguntam: Para que estudar filosofia? Geralmente a filosofia é considerada um saber abstrato e pretensioso, pois se propõe como um saber universal. Trata-se, para muitos, de uma proposta fantasiosa e, portanto, sem fundamento. Para a atualidade, deslumbrada pelas ciências modernas, um saber somente é confiável e digno de admiração se respeita os critérios de objetividade propostos pela comunidade científica. O filósofo é visto pelo grande público como “extraterrestre” que se dedica a elucubrações incompreensíveis que se distanciam das pessoas comuns.

Essa visão “negativa” pode se tornar, entretanto, uma primeira etapa do exercício filosófico. Mas isto só será possível se as pessoas aprofundarem a pergunta e não se deterem na sua superficialidade. O que quero dizer é que questionar-se sobre o “sentido da filosofia” já é um seu exercício. Não se trata, sem dúvidas de uma filosofia científica ou acadêmica, mas certamente é aquilo que podemos chamar de “filosofia espontânea ou natural”, em conformidade com a primeira frase de Aristóteles no início da sua obra Metafísica: “Todos os homens por natureza tendem ao saber”.

Por-se perguntas e buscar respostas para as mesmas é a atitude filosófica por excelência, é configurar-se com o modelo do sábio já proposto na antiguidade e que perdura na vida de todos os homens sem exceção: do homem do campo ao urbano, do mais simples ao mais culto, do analfabeto ao catedrático. De onde vim? Quem sou eu? Para onde vou? Estas são perguntas primordiais que muitos se põem de forma quase que imperceptível. Todos nós já nos deparamos na vida com pessoas que nunca formularam diretamente estas questões, mas que lhes deram respostas, as viveram e podemos dizer, até mesmo, que as encarnaram na própria história pessoal. Homens e mulheres (Dn. Maria, Sr. João, etc.) que se manifestaram a nós como verdadeiros “poços de sabedoria”. Cidadãos anônimos para o universo acadêmico, mas que vivem uma “existência autêntica”, isto é, dando o justo valor e sentido à si mesmos, aos outros e ao universo circundante.

O presente discurso pode parecer algo ideal e ingênuo, mas não o é. O homem é um ser histórico e deve aprender a ler a história. Sócrates, por exemplo, representa o ideal de sabedoria ou a clássica figura do filósofo. Ele, no entanto, não freqüentou academias de filosofia, não era um “homem formado”, não possuía títulos de bacharel, mestrado ou doutorado. Sócrates não fez discursos filosóficos, mas viveu como filósofo. Era no seu quotidiano, no encontro com as pessoas pelas ruas, no mercado, etc., que ele promovia uma verdadeira filosofia de vida, buscou o “melhor para alma”, para a sua e para a dos seus próximos, estabeleceu uma relação entre o público e o privado, pois considerava “viver bem” e “agir bem” coisas distintas, mas inseparáveis. Na sua concepção a vida deve ser promovida na sua totalidade.

Vivemos numa sociedade capitalista. O consumismo é latente e o tempo é escasso. Os homens estão cada vez mais imediatistas e utilitaristas. Não haveria, portanto, espaço para um tipo de conhecimento que, como é a filosofia, não corresponde aos parâmetros de “produção” ou de “utilidade”. Longe de mim, colocar-me como juiz da humanidade e dos meus contemporâneos. Sou um defensor da filosofia e tenho consciência de que a mesma, no seu percurso histórico, muito contribuiu com todo esse quadro, quando se desviou do seu fim e distanciou-se da excelência do exercício de sua vocação sapiencial. Nesta prospectiva, proponho nesta primeira postagem um vídeo sobre a “utilidade da filosofia”.

Certa vez, num almoço informal, quando alguns dos presentes souberam que eu estudo filosofia, questionaram-me: “Para que serve a filosofia?” Dei-lhes uma resposta provocatória: “Para dominar pessoas que inconscientemente são dominadas por quem estuda filosofia”. Silêncio e perplexidade! Os presentes se interessaram: “Como assim? A filosofia é um instrumento de domínio?” O diálogo foi muito fecundo! Proximamente poderei tratar do argumento, numa outra postagem. No momento, basta evidenciar que a filosofia está presente nos meios de comunicação, nos partidos políticos, em instituições públicas, em órgãos não governamentais, na indústria cinematográfica, nas comunidades científicas, no exercício humano como um todo, etc. Por que será que o regime militar brasileiro (1964-1985) retirou o ensino da filosofia nas escolas públicas?

Nesta primeira postagem não quero me estender, mas somente despertar o interesse dos nossos leitores pelas nossas futuras publicações. Além disto, consultando especialistas, fui aconselhado a não publicar conteúdos muito extensos, pois alguns leitores não apreciam este tipo de texto. Assim sendo, quando julgar necessário, indicarei links e arquivos sobre temáticas concretas para que os seguidores do blog possam verificá-los segundo o próprio interesse.


Desculpem-me os que julgaram o texto acima demasiado simplista. Convido todos a lerem as janelas na barra superior desta página (estrutura, nome, subtítulo, fragmentos de filosofia, mural) para que possam conhecer a nossa proposta e a articulação da mesma. Não pretendo fazer grandes debates de filosofia neste espaço. Há outras sedes e meios para fazê-los com mais eficácia. O que desejo é que o Blog De Intellectibilibus possa ser um canal ou instrumento de estímulo ao empenho pessoal (de vida mesmo!) na busca de um conhecimento global que possa fazer a diferença para todos os homens e não somente para os “profissionais do saber” ou catedráticos.